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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Achei!


Achado o livro: “Erros Nunca Mais” de Ivo Korytowski, no qual o lexicólogo faz uma coletânea dos principais desacertos encontrados em português e melhor, mostra como se vacinar contra eles.
E como tudo na vida pode ser visto como uma história, o episódio do encontro com o livro não poderia mais interessante. Olhando (e buscando), recostado ao gradil de uma livraria, que faz a divisória entre livros e uma cafeteria, tive uma ajuda providencial. Como sou fraco em brincadeiras tais como: “Onde está Wally?”, fiquei ali por alguns minutos procurando o livro de Ivo, mas nada. Passado algum tempo acabei achando um outro sobre a origem das palavras, ao folheá-lo uma voz feminina me pede: “Você pode pegar aquele ali para mim?”. Uma garota, que estava do outro lado, no Café, pedia um livro que se localizava próximo a mim. Perguntei-lhe então:
- Qual? Esse perto desse azul?
- Não, aquele amarelo.
- Esse! Não acredito, é o livro que eu estava procurando.
- Que coincidência!
- Não é história, procuro esse livro, pois o autor disse que...

http://compare.buscape.com.br/erros-nunca-mais-os-principais-erros-de-portugues-e-como-se-vacinar-contra-eles-korytowski-ivo-9788535228625.html

Vale a pena ver o porquê da minha busca na página 113.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Similaridades

Diz a Stãel que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessas, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa razão tão reta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu ? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É a ambição dizer à tua grande alma desanimada: "levanta-te, crê e ama; aqui está uma alma que te compreende e te ama também". A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, estou que saberei desempenhar este agradável encargo.

Trecho de Carta para Carolina - Machado de Assis (2 março de 1868)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Divulgação


Escritor angolano lança obra na Biblioteca Municipal de Jundiaí


Foto de Dorival Pinheiro
O prefeito Ary Fonsen ganhou uma obra especialmente autografada pelos autores

Contar a história luso-afro-brasileira a partir de relatos e documentários, compartilhando de reflexões para alcançar a sociedade em todos os seus níveis. Com esta proposta, foi lançado na noite de quinta-feira (12), na Biblioteca Pública Municipal Prof. Nelson Foot, o livro "Negro: Realidade, Proeminência e Reconsiderações", do casal de escritores angolanos José A . Bastos Júnior e Silvia Bastos.

Estiveram presentes ao encontro, o prefeito Ary Fossen, a secretária municipal de Cultura, Penha Maria Camunhas Martins, a diretora da Biblioteca, Neizy Martins de Oliveira Cardoso, o presidente do Grupo Zama (Associação do Movimento Afro-Brasileiro), Jorge Reis Tarcísio e apreciadores da Literatura.

O livro é o primeiro de uma série de dez volumes; os textos fazem uma referência ao século XV, quando ocorreu o processo de ocidentalização mundial e o início da escravidão dos negros, liderada pelos portugueses. Para Jorge Reis, a obra é um importante subsídio para os educadores. "Existe hoje a lei n° 10.639 que torna obrigatória a inclusão da história da África e afro-brasileira no calendário escolar. Dessa forma, lançar uma obra como esta se faz necessária."

O prefeito Ary Fossen recebeu dos autores uma obra especialmente autografada e destacou o caráter de religiosidade abordado. "Falta ao ser humano esta religiosidade que conduz à união, solidariedade para que todos convivam em harmonia e colham bons frutos, preparando um futuro promissor para todos. Basta encarar os desafios."

Silvia Helena Ferraz Santos

Copiado do site da Prefeitura de Jundiaí

Notícia do Lançamento no Jornal Local

Clique na figura para ampliá-la


terça-feira, 3 de julho de 2007

A Felicidade


Saint Anthony Abbot with the Young Saint John the Baptist - Nicolo dell' Abbate
“Reflitamos sobre o que realmente tem valor na vida, o que confere significado à nossa vida, e fixemos nossas prioridades com base nisso. O propósito da nossa vida precisa ser positivo. Não nascemos com a finalidade de causar problemas, de prejudicar os outros. Para que nossa vida tenha valor, creio que devemos desenvolver boas qualidades humanas essenciais – o carinho, a bondade, a compaixão. Com isso nossa vida ganha significado e se torna mais tranqüila, mais feliz.”

Dalai Lama

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Comunique-se - Vale a pena ler de novo


Pencil 1 - Hong Kyong Tack
Hoje, 28 de junho foi publicado, o texto: “No mar da tranqüilidade” no site Comunique-se, seção Literário.

Para acessar diretamente o texto* clique aqui

Ou então, veja-o aqui

* necessita de cadastro no site

terça-feira, 29 de maio de 2007

Contos Contíguos – capítulo III – Guilherme


Le rêve du peintre (The Dream of the Painter) - Marc Chagall
Guilherme era alto, moreno, forte. Seus pais sempre o forçaram a ser médico, diante da insistência em não seguir a carreira, abriram mão até em favor da advocacia e da engenharia. Mas, não houve jeito Gui queria ser administrador.

O pai achava que seguir administração era para ricos ou para quem nada queria fazer ou ainda por quem não sabia por onde seguir. Farmacêutico frustrado, pois tentou a medicina. Mas, além do valor intelectual não ajudar muito, a carreira exigiria um investimento que dispunha já que vinha de família pobre. Não desejava o mesmo para os netos, já passara muita dificuldade na infância e adolescência. O filho optando por outra carreira o desapontou fortemente e quase o pôs para fora de casa. Fora muito rígido com ele e desde o conhecimento da opção dele jamais o tratara da mesma forma. Foi diante desse panorama que o jovem seguiu sua vocação, como ele mesmo dizia a todos.

Lutou muito para conseguir seu primeiro trabalho, conseguiu, tempos depois de seus colegas de faculdade e de ginásio, um pequeno estágio. Nessa própria empresa era meio desacreditado como profissional, não havia feitos cursos extracurriculares e isso o punha em desvantagem em relação aos outros. Seu maior mérito era o brilho dos olhos e uma perseverança fora do comum. De família judia, porém pobre, coisa rara, Gui sempre teve grandes ambições. Levou a sério consigo a missão de ter muito dinheiro.

Mulherengo sabia como conquistar as meninas, seu porte e sua aparência e olhos azuis ajudavam. Aliás, foi assim que conseguiu sua primeira grande chance, paquerou uma mulher bem mais velha de uma grande empresa. Ela teve papel fundamental nessa escalada, pois além de lhe avisar sobre um processo seletivo pouco divulgado deu-lhe uma “forcinha” nas entrevistas. Pouco antes de sua contratação ela disse-lhe: “Faça sua parte que eu te coloco lá dentro”. Depois saíram algumas vezes, mas ela já calejada notara que ele não era homem para algo mais sólido. A diferença de idade, doze anos, não fazia tanto peso, mas Guilherme queria outras coisas.

Anos mais tarde, o rapaz já estava numa posição de relativo destaque no mercado e traçava todas as meninas. Sabia que o dinheiro, o carro e o apartamento recém-comprado faziam bem o papel para que as moças o desejassem, e valia-se disso.

Mas, isso foi até o dia que conheceu Marina. Ela surgiu por acaso em sua vida, fazia muito tempo que tentava na academia que freqüentava conquistar uma loirinha, pequena e muito bem torneada. Sempre que olhava para sua bundinha ficava louco. Mas, eis que em uma dessas festas que algumas academias promovem, ele foi na intenção de finalmente encontrá-la. Achava que tinha mais chances fora daquele ambiente viciado. Contudo, em meio a uma multidão procurou-a, encontrou-a, mas junto também achou a amiga dela, a Marina. Na verdade, um grupo inteiro de mulheres maravilhosas. Entretanto seus olhos pararam nela. Foi com tudo para cima, e alguns momentos de resistência depois ele já a estava beijando. Não fora um ósculo apaixonante, mas o prazer pela conquista falara mais alto. Mari era alta, loura, olhos azuis assim como os seus e chamava muito a atenção pelo sorriso claro e límpido. Simpática e inteligente, também era uma boa conversa para horas. Engataram um relacionamento de três anos.

Mas, todos nós pensamos que a priori serão tudo maravilhas no relacionamento. Infelizmente não, após o primeiro ano seus contatos esfriaram, na verdade nunca nada fora intenso. A relação sexual entre eles era confusa, ela nunca o procurava e às vezes à noite parecia que se conflagravam verdadeiros estupros. Havia o consentimento dela é claro, mas sem nenhuma ponta de desejo. Ele tão caloroso, se via frustrado. Gostava muito de sexo e aquilo o incomodava. Sentia um carinho enorme por ela. Mas sua vida tinha se alterado completamente depois dela. Sua carreira continuava em alto estilo – até melhorara – mas a insatisfação tomava conta. Outra coisa que não gostava naquele relacionamento era a falta de vontade dela em ter filhos no futuro. Contudo, isso achava que poderia ser alterado mais para frente, pois até a família dela o apoiava. No entanto a escassez de sexo o afligia cada vez mais. Tentava fugir das tentações como medo de magoá-la, mas não havia jeito, tinha que dar vazão àquele desejo carnal. Demorou a praticar o primeiro “adultério” – não eram casados, mas viviam juntos. Somente após mais ou menos vinte meses a traiu pela primeira vez, e foi com aquela gerente que a tinha dado uma ajuda em seu primeiro grande emprego – mantinha sempre os bons contatos.

Depois daí passou a buscar outras e a freqüência aumentou até que se decidiu a desfazer do que o estava incomodando tanto. Após várias conversas, não tão diretas, mas que o foco era sempre a exigência da presença dela e escapadas pela tangente por conta de Mari, ele decidiu mudar o rumo de sua vida. Largou-a muito ressentido, mas buscou seu prazer. Não podia viver com uma mulher que não o completasse como homem. E que a seu ver era a mais fugidia das mulheres que encontrara em toda a sua vida. Terminou o “namoro” e foi ter-se com uma paulistana fogosa. Entretanto, não deu certo, essa nova mulher era só sexo, e muito bom – toda vez agradecia aos céus. Que seja dito, as conversas pouco existiam. A outra coisa que o prendia a ela, era a exuberância de seu corpo e rosto era de parar o trânsito. Isso o fazia bem, dava-lhe orgulho. A propósito, Guilherme desde sua grande ascensão profissional fora tomado por uma soberba que o atrapalhou de ver o mundo de uma forma mais isenta. Seu mundinho se restringiu a ternos, carro, dinheiro, festas, restaurantes caros e esbanjar. Foi o seu maior erro, pois apesar de ganhar muito, seu patrimônio pouco fora aumentado em todos os últimos anos.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Contos Contíguos – capítulo II – Uma lição


Design for Destino – 1947 - Salvador Dali
A história de Berto é cheia de entreveros amorosos. Sempre um homem de caráter forte atraiu desde muito moço muitas garotas e mulheres. Seu jeito desligado era um componente que lhe dava uma ponta de charme. Além disso, lidava com as relações humanas de modo racional, o que a priori seria um motivo de distanciamento das pessoas por alguma razão as aproximava. Apaixonar-se ou gostar das meninas era platônico, na maioria das vezes. Forte e ao mesmo tempo sem entrega. Aliás, nascera como uma couraça que o impedia de ir a fundo em qualquer que fosse o relacionamento. Isso se traduzia como um fator enlouquecedor para o sexo oposto. Elas queriam ter o domínio sobre aquele homem, mas ele escorregava. De tanto ouvir comentários a respeito disso, decidiu, ressabiado, analisar a situação. Segundo as mocinhas esse era o fator principal para não engatar um namoro. Ainda desconfiado e um pouco inseguro começou a se soltar e finalmente teve sua primeira – real - namorada. Ainda pisando em ovos, foi se abrindo e mostrando seu verdadeiro eu. Aquele que parecia impossível de se atingir, finalmente deu os primeiros passos ao coração. Entregou-se perdidamente àquela mulher. Morria de amores e ciúmes. Alguns pensamentos o consumiam. Vivia o céu quando junto dela e o inferno longe. Na verdade nem sempre era assim. No decorrer de seu relacionamento, Berto que era inocente, mas inteligente percebia que algumas atitudes daquela pequena eram no mínimo estranhas. Pressentia de alguma forma, e o levavam, mesmo que de maneira inconsciente, a crer que características levianas estavam abrigadas nela. No entanto, mesmo não estando cego de amores, lhe doía o fato de pensar em não mais tê-la. O sexo era ótimo, aliás, anos depois percebeu que nada de tão excepcional havia no ato.

A vontade de estar com ela e também até a simples razão de saber que alguém se importava com ele já justificava o relacionamento. Era um garoto ainda, tateava pelo mundo dos romances, nada sabia da vida e muito tinha a perder. Embora jovem, já trabalhava. Na pequena mercearia ganhava o sustento para suas badalações e ainda lhe sobrava muito. Dinheiro que não se recusava a gastar com presentes para sua linda cortejada. Aos poucos, ela, que, apesar de mais amadurecida, era um ano mais jovem, via seu poder sobre o pobre mancebo passou a se aproveitar de situações insinuando esse ou aquele desejo material. O jovem a cobria de mimos, estava, coitado, caído. O curioso nisso tudo é que mesmo que houvesse tido relações sexuais anteriores, a cópula o prendia de uma forma indecifrável.

Com o avançar dos meses de convivência, começou-se a constatar alguns fatos que antes eram só fruto de sua imaginação ou de, uma sensibilidade apurada. Certa vez numa boate, se deu conta que a namorada trocava olhares com outrem. Pego-a num relance e frente ao desconcerto dela teve certeza. Foram embora do local e ele contrariado brigou, mas fez o pior não determinou o fim do relacionamento. Sua relação, ficou clara, era de dependência. Amolecendo nesse momento, perdeu-se muito em respeito próprio e mais ainda em segurança. Ficou inseguro.

Dava-lhe tudo fazia suas vontades e tinha um fogo absurdo, até mesmo para idade. Quando o assunto era transar não deixava em branco. Ficou preocupado, não sabia o que estava errado no namoro. Então, investiu então mais naquela mulher, comprou jóias caras com as economias que tinha e tentou segurá-la de todas as formas. Mas o erro não estava nele. Depois de tanto se magoar e viver às voltas com imagens de traição que lhe atormentavam, um fato deu novo contorno a sua situação. Não fora um flagrante, mas a certeza de que uma mentira o transportava ao óbvio.

Certa vez, quando visitou a amada em sua casa, deparou-se com uma roupa dependurada numa cadeira com características muito similares, para não dizer quase idênticas as que havia visto, por acaso no dia anterior em uma menina. Nessa ocasião chegou a confundi-la com a namorada, mas pela distância fora impossível ter certeza. A então garota havia entrado em um prédio residencial em um local longínquo da casa da namorada. Não deu muita atenção e descartou a hipótese, afinal o que ela poderia estar fazendo lá? Sabia que podia ser só impressão, pois estava muito distante e poderia ser só alguém parecido, ficou com medo dessa percepção, achou que estava perdendo as estribeiras. Além disso, outra coisa que se anunciava contra é que no horário de sua visão ela deveria estar num curso em outro canto da cidade.

Mas, a dúvida lhe encafifou, decidiu então ao enxergar a roupa na cadeira perguntar como tinha sido o curso, ela teve uns segundos de desconcerto. Mentiu. Já com medo de alguma desconfiança escondeu com o pé as pequenas meias vermelhas da véspera, espalhadas por cima do tênis. Ele notou o movimento. Foi o começo do ponto final. Agora tinha certeza. Ela havia sido infiel. Voltou para casa com vontade de chorar. Mesmo assim a deixara como se nada tinha acontecido. Pensou, pensou e se preparou para a idéia de deixá-la. No dia seguinte a hipótese, mais clara, do término já estava viva na sua mente. Ligou para ela, combinaram de se encontrar e foi direto ao assunto: não a queria mais. Caminhou um pouco e depois virou olhando para ver se ela tinha alguma reação de choro. Nada aconteceu. Soube muito tempo depois que aquela traidora chorou por três dias. Mas àquela altura, seu coração mesmo muito doído não admitia retorno. Foi sua primeira lição como homem.

domingo, 6 de maio de 2007

No mar da tranqüilidade


The Sea At Fecamp - Oil on canvas - 1881 - Monet

À beira da praia, um jovem de sessenta e quatro anos admira as ondas, o movimento do mar e olha a areia se desvanecendo com a força do vento.

Uma visão de nostalgia.

Sua casa é simples e bem localizada em um lugar pouco degradado – por ser ainda pouco conhecido e de acesso difícil.

Um olhar perdido no horizonte de boas lembranças. Lembra-se das mulheres que teve, das alegrias que proporcionou aos outros, das risadas, das conversas furtivas. De nada parece ser o homem que deveria ser - um sujeito amargurado pelas peças que a vida lhe pregou. Aos quatro anos de idade foi violentado por um maníaco. Aos nove sofreu grave acidente que o deixou impraticável para vários esportes, em especial ao que mais gostava a ginástica olímpica. Com doze foi induzido pelas más companhias a consumir drogas, preso aos treze em uma casa de recuperação se submeteu a várias provações, dentre elas a fome, o frio – que lhe trouxe junto uma pneumonia que quase o matou. Solto aos dezesseis, decidiu recuperar o tempo perdido, estudou muito e conseguiu completar seu segundo grau à custa de muito esforço.

Era inteligente para os estudos, mas não tinha berço nem base para enfrentar aquele nível de conhecimento sem que fosse a troca de um considerável esforço extra. Falava errado, escrevia pior e foi vítima de galhofas. Não revidava era de boa índole, e sequer percebia algumas maldades em seu entorno. Não conseguiu passar no vestibular em suas primeiras tentativas, pois era muito fraco para competir em tom de igualdade com o pessoal da elite. Na terceira vez em que já estava quase decidido a mudar de rumo em sua tentativa para medicina - já até se inscrevera para administração, curso considerado de mais fácil aprovação – conseguiu finalmente. O curso, no entanto, não foi condescendente com ele, precisa de livros caros e sua atividade empregadora – era atendente em uma lanchonete – não lhe dava condição suficiente para comprar obras tão caras. Virava-se como podia, mas não foi o suficiente, foi reprovado no primeiro ano e viu sua turma ir em frente.

Morava sozinho, pois seu pai o havia abandonado quando fora encarcerado, injustamente ao ser flagrado consumindo maconha. Sabia que tinha sido preso por que era pobre e precisava fazer número às vistas das “otoridades”. Nunca chegou a conhecer sua mãe, pois ela sumiu ao dar-lhe à luz. Mais tarde, soube que já estava morta, mas não sabia ao certo onde havia sido enterrada. Era sua missão, um dia queria descobrir os verdadeiros fatos. Alguns, inclusive o pai – um sujeito severo e grosseiro – haviam lhe dito que fora uma doença terrível a levara e que até por isso a fizera ter razão para o abandono.

Mais tarde ao chegar quase no fim do curso de medicina – faltavam exatos oito meses - foi obrigado a abrir mão do sonho, estava encalacrado em dívidas contraídas ao longo dos anos. Nesse momento já exercia o cargo de gerência de uma distribuidora de roupas o que lhe obrigava às constantes viagens – outro forte motivo que o impedia de cursar a faculdade, pois eram constantes as faltas. Sanou suas dívidas após largar a medicina em quatro anos. Sempre fora amoroso com suas namoradas e companheiras por toda a vida, praticamente se doava aos seus bel-prazeres, via naquilo uma amostra do amor verdadeiro e romântico. Fora também enganado na maior parte das vezes por mulheres ambiciosas que se aproveitavam de sua ingenuidade e bondade. Corno era uma palavra forte, mas que estava muito presente no seu dicionário, se contentava em saber que nessas aventuras amorosas, a culpa poderia ser até sua, mas nunca tinha sido forma deliberada. Que os rompimentos diante das deslealdades embora lhe doessem não tinham sido fruto de uma ação sua. Afinal quem havia cruzado a linha da falta de caráter e do desengano não fora ele.

Vivia de forma simples, e sua ascensão profissional conseguira dar-lhe um conforto maior, já conseguia alugar um pequeno apartamento – morou durante anos em um quarto nos fundos de um sobrado pouco amistoso no centro da cidade. No entanto, um ponto de frustração lhe abatia, com sua mudança de ambiente, novas companhias também foram sucedidas. Nas novas rodas de amigos, era o único a não ter completado os estudos e ter uma profissão.

Decidiu então ser advogado, pois a medicina infelizmente o deixara para trás e não estava disposto a ter frustrações de reiniciar tudo novamente, sua idade também já era um empecilho e o mercado de trabalho na área médica – cirúrgica - era cruel com pessoas mais velhas sem experiência. Formou-se depois de quatro anos exatos – já estava mais adaptado ao ambiente de faculdades e a confiança não mais lhe fugia. Em função do mesmo problema da medicina, não conseguia exercer sua profissão e se encaminhou para o setor público, prestou concursos e logo se tornou juiz. Muito competente e com um senso de justiça e ética muito grande colecionou inimigos ao não aceitar conchavos e propinas. Em uma tarde a frente de muitas pessoas conhecidas sofreu um atentado que quase o matou – por sorte não lhe atingiu mais gravemente – mas tirou-lhe quase que totalmente o movimento de uma das pernas. Incidente que lhe deu – por forças “ocultas” – uma condição de aposentado por invalidez. Mas o que mais tinha deixado com choros e tristezas no coração foi a conclusão a que chegara. Enquanto ativo e possuidor de status e poder muitos amigos os tinham na mais alta consideração. Ao ser colocado – contra sua vontade – fora do serviço público, sumiram. E até alguns presentes na tentativa de assassinato sequer testemunharam a seu favor. O réu era conhecido e nunca foi definitivamente condenado pelo fato. Era um empresário, rico, mas nem tanto, contudo tinha uma série de pessoas no judiciário comprometidas com ele.

Passaram-se os anos e tratou de esquecer os ocorridos, pois não valia a pena. Isso só lhe fazia mal e não tinha efeito prático algum. Decidiu-se a pintar como hobby e vez por outra convidava alguns remanescentes amigos para sua casa a fim de trocar conversas e mostrar suas pequenas grandes obras. Era possível perceber nelas seus tons de amargura, mas não em suas ações. Pessoa alegre, comunicativa e com muitos carinhos com quem quer que seja. Aos amigos nem se fala. Parecia que transportava tudo que tinha acontecido ao longo de mais de sessenta anos para as telas. Ali estava impresso a parte ruim dele, a tristeza, o desvanecimento, a melancolia, o descrédito com parte da sociedade e os rancores.

Mas, ao se tratar com ele se via que não tinha mágoas, só guardava alegrias, por isso permanecia sempre com seu rosto envolto num sorriso. Escondendo o que a vida tinha lhe preparado.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Contos Contíguos – capítulo I - Berto e Mônica


Ilustração de Gustave Dore – da Obra Don Quixote - Cervantes
Berto era determinado, avoado, alto, magro e cheio de amor para dar. Mônica frágil nos amores, forte e perseverante no trabalho, morena, cabelos lisos e negros. Para Berto era às vezes um bibelô, outras muitas curvas. Não sabia ao certo como se aproximar dela. O certo é que ela estava desgostosa com seu casamento. Ficava imaginando como chegar até ela. Será que o via como homem ou só como amigo? Fazia também elucubrações a respeito de sua nudez. Pensava em como seria maravilhoso tê-la nua numa casa à beira-mar. Esparramados pela cama a ver o movimento das ondas e ele ainda com mais uma paisagem à sua frente, o delinear do corpo em pêlo, com os altos e baixos da anatomia, indo dos pés à cabeça.

Em todas em que se aproximava dela não mais conseguia ver nada, se sentia atordoado, não racionava direito, o sangue subia.

Tinha vontade de abraçá-la com muita força, num sentimento que misturava o desejo de protegê-la com o de tê-la. Queria envolvê-la.

Um carinho muito grande também se nutria. Seus olhos lhe mostravam uma carência incompreensível e surda. Como atingir aquela mulher que se encontrava na sua frente? Um beijo roubado?

Eles haviam se conhecido fazia pouco tempo. Foi a partir de um amigo em comum – que depois sumiu. Encontraram-se numa festa e descobriram que trabalhavam muito próximos. Combinaram então de voltarem sempre – ou quase – juntos de Metrô. No entanto, suas conversas sempre foram mais para amistosas, nunca tinha havido um movimento de ambas as partes de se relacionar sexualmente. Mas, de uns tempos para cá, Berto começou a olhar para ela de outra forma. Talvez o momento, ou quem sabe um despertar. Passou-se um ano e ela mudou de trabalho, se perderam de vista, não mais voltavam juntos, seus papos mesmo que inocentes não mais aconteciam. Mas, passaram a morar próximo um do outro, contudo aquela “obrigação” do contato havia se perdido. Ela era esposa – mesmo que não fosse no papel. Morava tinha 5 anos com um carinha que ele jamais havia visto, aliás, nem fazia questão.

O problema vagava sua mente, era único: como restabelecer o convívio?